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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

'MEIN KAMPF'

[...] The moral and physical cleanliness of this race was
a point in itself. It was externally apparent that these
were not water-loving people, and unfortunately one could
frequently tell that even with eyes closed. Later the smell
of these caftan wearers often made me ill. Added to this
were their dirty clothes and their none too heroic appear-
ance.

Perhaps all this was not very attractive; aside from the
physical uncleanliness, it was repelling suddenly to discover
the moral blemishes of the chosen people.

Nothing gave me more cause for reflection than the
gradually increased insight into the activities of Jews in
certain fields.

Was there any form of filth or profligacy, above all in
cultural life, in which at least one Jew did not partici-
pate?

When carefully cutting open such a growth, one could
tind a little Jew, blinded by the sudden light, like a maggot
in a rotting corpse.

The Jews' activity in the press, in art, literature, and the
theater, as I learned to know it, did not add to their credit. [...]
. 

sábado, 3 de janeiro de 2015

CORRUPÇÃO - É LEGÍTIMO SUPOR

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A propósito da detenção de José Sócrates, recordo por estes dias vários momentos da vida política do país e do exercício do jornalismo em Portugal.
5 de Janeiro de 2009.
No final do primeiro mandato e já em ano de eleições legislativas, o primeiro Ministro aceita dar uma entrevista televisiva à SIC, conduzida por mim e por Ricardo Costa.
No decurso da conversa tensa, crispada, José Sócrates é confrontado com um gráfico do próprio orçamento de Estado de 2009, que mostra o verdadeiro impacto das sete novas subconcessões rodoviárias em regime de parceria público privada: a conta a cargo do contribuinte é astronómica, mas só comecará a ser paga...em 2014.
A reação do político é de surpresa desagradável de falta de argumentos rápidos, pela primeira vez em muitos momentos de confronto jornalístico com a realidade das políticas que estavam a ser lançadas como "as melhores para o país", sem alternativa válida. Na mesma entrevista, Ricardo Costa questiona o então primeiro Ministro sobre o verdadeiro impacto da política para o setor energético, que estava a invadir a paisagem com milhares de "ventoinhas" eólicas. A reação evoluiu da surpresa negativa para a agressividade.
No balanço dessa entrevista, boa parte do país "bem pensante" insurgiu-se contra...os jornalistas. Os nomes que então nos chamaram estão ainda na internet, basta fazer uma pesquisa rápida.
Nesse ano de 2009, o Governo tinha lançado um pacote de estímulo à economia no valor de dois mil milhões de euros  obtidos a crédito no exterior porque nem Estado nem privados tinham já poupança interna suficiente.
A maior parte do mega-investimento foi aplicada na renovação de escolas através da Parque Escolar. Uma crise decorrente de um brutal endividamento combatia-se com mais dívida.
No ano anterior, a Estradas de Portugal tinham visto os seus estatutos alterados por iniciativa do Governo.
Passava a ser uma entidade com toda a liberdade para se endividar diretamente, sem limite. Ao então primeiro Ministro, ao Ministro da tutela, ao secretário de Estado das obras públicas, perguntei muitas vezes em público se sabiam o que estavam a fazer. E fui publicamente contestado por andar a "puxar o país para baixo".
Em 2007, o então Ministro da Economia cedia por 700 milhões de euros a extensão da exploração de dezenas de barragens por mais 15 a 25 anos à EDP. Os próprios relatórios dos bancos de investimento valorizavam na altura esta extensão em mais de dois mil milhões de euros.
A meados de 2009 começa a ouvir-se falar do interesse da PT em comprar a TVI. O negócio é justificado pela administração da empresa como uma necessidade de as operadoras de telecomunicações, distribuidoras de conteúdos avançarem para o controlo da produção desses mesmos conteúdos.
Por aquela altura, já os casos, dos projetos da Cova da Beira, da licenciatura duvidosa e das alegadas luvas no Freeport faziam as páginas dos jornais e aberturas nas televisões.
Por aquela altura, o jornalista e gestor Luís Marques, dizia-me que era uma vergonha nacional Portugal ter um primeiro Ministro com indícios de ser corrupto. E que a nível internacional isso também já era notado.
Confesso que apesar das dúvidas que tinha sobre a condução dos grandes negócios de Estado, achei exagerada a afirmação. Sublinho a altura em que foi feita - finais de 2009.
O tempo, esse grande clarificador, fez o seu trabalho. 
Muitas mais histórias ouvimos desde então sobre a mesma personalidade política.
Muitas investigações que já estavam em curso foram aprofundadas; muitas novas investigações foram iniciadas.
Desde há muito que está a ser questionada a legalidade da atribuição de concessões de barragens por valores irrisórios; que está a ser investigada a suspeita de favorecimento de decisores no processo das PPP rodoviárias; que foi investigada e estranhamente arquivada a suspeita d controlo deliberado da comunicação social através da compra de um grande grupo de comunicação social por uma empresa do regime; que se continuam a investigar a razoabilidade dos mega-investimentos em novas escolas e dos pagamentos avultados a determinados fornecedores...
Outras histórias mal-explicadas, como a da origem dos recursos para manter multiplicados sinais exteriores de riqueza, foram correndo o seu tempo e os seus termos, com ou sem intervenção das entidades de investigação...O tempo, esse grande clarificador, faz sempre o seu trabalho.
A suspeita materializa-se agora sob a forma de detenção e prolongado interrogatório. A imprensa, desde sempre acusada de conspiração, destapa agora indícios de inquietantes de conluios com recetadores e correios de verbas muito avultadas.
Só se surpreende quem não quis ver os sinais.
É legítimo supor que mais investigações levarão a mais resultados. É legítimo perguntar porque é que no ano 2010 aparecem 20 milhões de euros na conta de um amigo na UBS, na Suíça. E é legítimo lembrar que em Julho desse ano a PT vendeu a Vivo à Telefónica por 7.500 milhões de euros. E é legítimo imaginar que negócios desse tipo requeiram "facilitadores".
Face ao que aconteceu na história recente deste país, é legítimo a um jornalista e a qualquer cidadão interrogar-se sobre tudo isto e muito mais.
E é extraordinário ver que a maior parte do tempo de debate sobre esta mediática detenção é gasta em condenações à maneira de atuar das autoridades judiciais. Como se fosse dever dos investigadores convidarem o suspeito para uma conversa amena num agradável bar de hotel, por ter ocupado o cargo que ocupou.
Não, o que está a acontecer em Portugal, com a queda do Grupo Espírito Santo e de Ricardo Salgado, as detenções de altos funcionários públicos no caso dos Vistos Gold e a detenção de José Sócrates, não é uma desgraça: é a Grande Clarificação do Regime, a derrocada do Crony Capitalism, o capitalismo lusitano dos favores e do compadrio.
É revoltante saber que o Parlamento aprovou sem hesitar todos os regimes especiais de regularização tributária, os RERT I, II e III, quando sabiam que a respetiva formulação jurídica iria apagar todos os crimes fiscais associados à repatriação do dinheiro de origem obscura que tinha sido posto lá fora. Os deputados foram previamente avisados desse gigantesco efeito de "esponja" pelos mesmos altos responsáveis tributários que me avisaram a mim...
Os mesmos RERT que passaram uma esponja sobre as verbas de Ricardo Salgado e as do recetador agora identificado no caso do ex-primeiro Ministro.
Sim, o Parlamento continua lamentavelmente a ser a mesma central de interesses.
Mas há esperança. Tal como o país está a mudar, o Parlamento também há de mudar.
A nós, cidadãos e jornalistas, assiste o direito de fazer perguntas, face a sinais estranhos que alguns políticos insistem em transmitir.
Face a esses sinais, é legítimo supor.
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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

CORRESPONDÊNCIA DE FRADIQUE MENDES

Querido Amigo .—Cumpro enfim a promessa feita na sua erudita ermida das Águas Férreas, naquela manhã de Março em que conversávamos ao sol sobre o carácter dos Antigos,—e remeto, como documento, a fotografia da múmia de Rameses II (que o francês banal, continuador do grego banal, teima em chamar Sesóstris), recentemente descoberta nos sarcófagos reais de Medinet-Abou pelo professor Maspero.
Caro Oliveira Martins, não acha V. picarescamente sugestivo este facto—Ramsés fotografado ?... Mas aí está justificada a mumificação dos cadáveres, feita pelos bons Egípcios com tanta fadiga e tanta despesa, para que os homens gozassem na sua forma terrena, segundo diz o Escriba, «as vantagens da Eternidade!» Rameses, como ele acreditava e lhe afirmavam os metafísicos de Tebas, ressurge efectivamente «com todos os seus ossos e a pele que era sua», neste ano da Graça de 1886. Ora 1886, para um Faraó da décima-nona dinastia, mil e quatrocentos anos anterior a Cristo, representa muito decentemente a Eternidade e a Vida Futura . E eis-nos agora, podendo contemplar as «próprias feições» do maior dos Ramesidas, tão realmente como Hokem seu Eunuco-Mor, ou Pentaour seu Cronista-Mor, ou aqueles que outrora em dias de triunfos corriam a juncar-lhe o caminho de flores, trazendo «os seus chinós de festa e a cútis envernizada com óleos de Segabai». Aí o tem V. agora diante de si, em fotografia, com as pálpebras baixas e sorrindo. E que me diz a essa face real? Que humilhantes reflexões não provoca ela sobre a irremediável degeneração do homem! Onde há aí hoje um, entre os que governam povos, que tenha essa soberana fronte de calmo e incomensurável orgulho; esse superior sorriso de omnipotente benevolência, duma inefável benevolência que cobre o Mundo; esse ar de imperturbada e indomável força; todo esse esplendor viril que a treva de um hipogeu, durante três mil anos, não conseguiu apagar? Eis aí verdadeiramente um Dono de homens ! Compare esse semblante augusto com o perfil sorno, oblíquo e bigodoso dum Napoleão III; com o focinho de buldogue acorrentado dum Bismarque; ou com o carão do Czar russo, um carão parado e afável que podia ser o do seu Copeiro-Mor. Que chateza, que fealdade tacanha destes rostos de poderosos!
Donde provém isto? De que a alma modela a face, como o sopro do antigo oleiro modelava o vaso fino:—e hoje, nas nossas civilizações, não há lugar para que uma alma se afirme e se produza na absoluta expansão da sua força. Outrora um simples homem, um feixe de músculos sobre um feixe de ossos, podia erguer-se e operar como um elemento da Natureza. Bastava ter o ilimitado querer—para dele tirar o ilimitado poder. Eis aí em Rameses um ser que tudo quer e tudo pode, e a quem Ftás, o Deus sagaz, diz com espanto: «a tua vontade dá a vida e a tua vontade dá a morte!» Ele impele a seu bel-prazer as raças para Norte, para Sul ou para Leste; ele altera e arrasa, como muros num campo, as fronteiras dos reinos; as cidades novas surgem das suas pegadas; para ele nascem todos os frutos da terra, e para ele se volta toda a esperança dos homens; o lugar para onde volve os seus olhos é bendito e prospera, e o lugar que não recebe essa luz benéfica jaz como «o terrão que o Nilo não beijou» os deuses dependem dele, e Amnon estremece inquieto quando, diante dos pilones do seu templo Rameses faz estalar as três cordas entrançadas do seu látego de guerra! Eis um homen —e que seguramente pode afirmar no seu canto triunfal: —«Tudo vergou sob a minha força: eu vou e venho com as passadas largas dum leão; o rei dos deuses está à minha direita e também à minha esquerda; quando eu falo o Céu escuta; as coisas da Terra estendem-se a meus pés, para eu as colher com mão livre; e para sempre estou erguido sobre o trono do mundo!»
«O mundo», está claro, era aquela região, pela maior parte arenosa, que vai da cordilheira Líbica à Mesopotamia: e nunca houve mais petulante ênfase do que nas Panegíricas dos Escribas. Mas o homem é, ou supõe ser, inigualavelmente grande. E esta consciência da grandeza, do incircunscrito poder vem necessariamente resplandecer na fisionomia e dar essa altiva majestade, repassada de risonha serenidade, que Rameses conserva mesmo além da vida, ressequido, mumificado, recheado de betume da Judeia.
Veja V., por outro lado, as condições que cercam hoje um poderoso do tipo Bismarque. Um desgraçado desses não está acima de nada e depende de tudo. Cada impulso da sua vontade esbarra com a resistência dum obstáculo. A sua acção, no Mundo, é um perpétuo bater de crânio contra espessuras de portas bem defendidas. Toda a sorte de convenções, de tradições, de direitos, de preceitos, de interesses, de princípios, se lhe levanta a cada instante diante dos passos, como marcos sagrados. Um artigo de jornal fá-lo estacar, hesitante. A rabulice dum legista obriga-o a encolher, precipitadamente, a garra que já ia estendendo. Dez burgueses nédios e dez professores guedelhudos, votando dentro duma sala, estatelam por terra o alto andaime dos seus planos. Alguns florins dentro dum saco, tornam-se o tormento das suas noites. É-lhe tão impossível dispor dum cidadão como dum astro. Nunca pode avançar duma arrancada, erecto e seguro tem de ser ondeante e rastejante. A vigilância ambiente impõe-lhe a necessidade vil de falar baixo e aos cantos. Em vez de «recolher as coisas da terra, com mão livre»—surripia-as às migalhas, depois de escuras intrigas. As irresistíveis correntes de ideias, de sentimentos, de interesses, trabalham por baixo dele, em torno dele: e parecendo dirigi-las, pelo muito que braceja e ronca de alto, é na realidade por elas arrastado. Assim um omnipotente, do tipo Bismarque, vai por vezes em aparência no cimo das grandes coisas;—mas como a bóia solta, vai no cimo da torrente.
Miserável omnipotência! E o sentimento desta miséria não pode deixar de influenciar a fisionomia dos nossos poderosos, dando-lhe esse feitio contrafeito, crispado, torturado, azedado e sobretudo amolgado que se nota na cara de Napoleão, do Czar, de Bismarque, de todos os que reúnem a maior soma de poder contemporâneo—o feitio amolgado duma coisa que rola aos encontrões, batendo contra muralhas.
Em conclusão:—a múmia de Rameses II (única face autêntica do homem antigo que conhecemos) prova que, tendo-se tornado impossível uma vida humana, vivida na sua máxima liberdade e na sua máxima força, sem outros limites que os do próprio querer—resultou perder-se para sempre, no tipo físico do homem, a suma e perfeita expressão da grandeza. Já não há uma face sublime: há carantonhas mesquinhas, onde a bílis cava rugas por entre os recortes do pêlo. As únicas fisionomias nobres são as das feras, genuínos Rameses no seu deserto, que nada perderam da sua força, nem da sua liberdade. O homem moderno, esse, mesmo nas alturas sociais, é um pobre Adão achatado entre as duas páginas dum código.
Se V. acha tudo isto excessivo e fantasista, atribua-o a que jantei ontem, e conversei inevitavelmente, com o seu correligionário P., conselheiro de Estado, e muchas cosas más . Más em epanhol; e más também em português no sentido de péssimas. Esta carta é a reacção violenta da conversa conselheiral e conselheirífera. Ah, meu amigo, desditoso amigo, que faz V. depois de receber o fluxo labial dum conselheiro? Eu tomo um banho por dentro—um banho lustral, imenso banho de fantasia, onde despejo, como perfume idóneo, um frasco de Shelley ou de Musset. Amigo certo et nunc et semper .—Fradique Mendes.
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sábado, 6 de dezembro de 2014

OS AMIGOS DE MÁRIO SOARES

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Texto de César Príncipe 


Em 30 de Novembro de 1983, chefiava Mário Soares o governo do Bloco Central, foi invectivado por manifestantes, em Coimbra. O governante pressionou um agente da PSP para que actuasse. Levados os detidos a Tribunal, o juiz Herculano Nogueira considerou não ter o caso acolhimento, pois o Código Penal exigia apresentação de queixa pelo ofendido. O estadista Soares não se conteve: Se o juiz entendeu que não foi um crime público, o problema é dele. Ficamos a saber que esse juiz não se importa que lhe chamem gatuno. O magistrado denunciou Sua Excelência ao Conselho Superior da Magistratura por desrespeito para com um órgão de soberania e a independência dos tribunais. Daí a dias, o Conselho de Ministros alterou o Código Penal, fazendo com que fosse dispensada qualquer queixa do ofendido, sempre que se tratasse de crimes de difamação, injúrias e outras ofensas contra órgãos de soberania e respectivos membros. Uma lei à medida.
Em 26 de Novembro de 2014, à saída da prisão de Évora, onde foi visitar o amigo José Sócrates, o ex-governante e ex-presidente da República e actual Conselheiro de Estado invectivou magistrados, inspectores da Judiciária e da Autoridade Tributária, quantos, ao longo de um ano, cooperaram nos fundamentos processuais (até ao momento, 800 páginas de provas indiciárias), que persuadiram um juiz de Instrução Criminal a ditar prisão preventiva para um ex-primeiro-ministro.
Mas ontem, Mário Soares, um ex-primeiro-ministro absolveu José Sócrates, outro ex-primeiro-ministro e condenou liminarmente a Justiça. O primeiro foi declarado inocente sem esperar pelo julgamento e a segunda considerada uma tropelia, uma vergonha, uma infâmia, uma bandalheira, coisa de uns tipos, de malandros. Pensaria Mário Soares, em 1983, que um belo dia, em 2014, poderia ser vítima da sua alteração do Código Penal?
É evidente que o ex-primeiro magistrado da Nação sempre adoptou a pele de animal feroz na defesa de determinados amigos. Não se trata de uma questão de idade ou de emoção de circunstância. Defendeu continuadamente o amigo Carlos Andrés Pérez, que foi presidente da República da Venezuela, alvo de impeachment por acção da Procuradoria-Geral da República e do Congresso Nacional, sendo destituído, em 1993, detido preventivamente e depois sentenciado a dois anos e quatro meses de prisão. Acusação confirmada: peculato doloso e apropriação indevida. No que toca à fortuna pessoal, por via política, as estimativas situavam André Pérez ao nível das centenas de milhões de dólares. Era alcunhado saudita.
Igualmente defendeu convictamente o amigo Bettino Craxi, ex-primeiro ministro de Itália, amigo de Berlusconi, apanhado na Operação Mãos Limpas.
Demitiu-se por corrupção. Não cumpriu a pena de 14 anos. Fugiu para a Tunísia, onde faleceu, amparado pelos 150 milhões de euros da conta poupança afincadamente amealhada ao leme do governo.
Neste momento, José Sócrates não é inocente: apenas beneficia de presunção de inocência. Ontem, em Évora, Mário Soares, ex-primeiro ministro e ex-presidente da República e actual conselheiro de Estado, protagonizou uma cena de degradação entre o patético e o preocupante. O patético é óbvio. O senador está a precisar de descanso no Palácio da Pena. O preocupante é que alguém o secunde, pois está convencido que o país pensa como ele. José Sócrates até poderá ter alguma razão para queixumes. Mas muito mal andará se continuar a receber visitas de nível tão elevado.
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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O LEITOR TEM OPINIÃO SOBRE O CASO JOSÉ SÓCRATES? NÃO TENHA

O leitor tem opinião sobre o caso José Sócrates? Não tenha. Isso configura um delito de julgamento na praça pública. A não ser que ache que José Sócrates está a ser vítima de justicialismo. Nesse caso, tem licença de porte de opinião. Para não haver dúvidas, aqui vai uma cartilha com o que é admissível pensar:
a) Avaliar a hipótese de José Sócrates ser culpado? Não se pode.
b) Levantar dúvidas sobre a idoneidade do juiz Carlos Alexandre? Pode-se.
c) Questionar as reais motivações do procurador Rosário Teixeira? Pode-se.
d) Sugerir que Joana Marques Vidal orquestrou este charivari? Pode-se.
e) Desconfiar de um propósito tenebroso do sistema judicial? Pode-se.
f) Suspeitar de manipulação obscura pela comunicação social? Pode-se.
g) Insinuar que o Passos Coelho lucra com isto? Pode-se.
h) Alvitrar que Portas é que devia ir preso por causa dos submarinos? Pode-se.
i) Considerar que Cavaco Silva tem negócios ilícitos com os seus amigos do BPN? Pode-se.
j) Conjeturar que isto é tudo uma cabala montada pelo PSD para distrair dos vistos gold? Pode-se.
Em termos de limitação à liberdade de opinião, só é proibido achar que José Sócrates pode ser culpado. Quem violar esta disposição tem de se haver com a brigada de trânsito em julgado. De resto, é tudo debatível.
Mas mesmo a defender José Sócrates há que ter cautela. Por exemplo, João Soares disse que "exceto por crime de sangue, em flagrante delito, não aceito a prisão (…) de um ex-primeiro-ministro como José Sócrates". Precipitou-se. Mesmo segurando arma pingona de sangue cravada em cadáver, nunca se aceitaria a detenção de Sócrates. A presunção de inocência manter-se-ia. Possivelmente seria legítima defesa. Ou um acidente. Ou, o mais provável, uma armadilha da suposta vítima que se lançara contra Sócrates enquanto este cortava o pão, para se empalar 17 vezes na faca e incriminar quem só desejava fazer uma sandes mista.
Entretanto, debrucemo-nos à enorme parcialidade demonstrada pela Justiça. De todos os ex-primeiros-ministros vivos, por acaso detiveram Pinto Balsemão no aeroporto por suspeitas de corrupção no caso Cova da Beira? E à chegada de que voo é que incomodaram Mário Soares a propósito da falsificação de documentos da Licenciatura em Engenharia? Ou Cavaco Silva, por alegada troca de favores no caso do TagusPark? E Guterres por beneficiar de um RERT por ele aprovado? Já para não falar de Durão Barroso, pelo Face Oculta, e Santana Lopes, pelo Freeport. Porque é que tinham de embirrar logo com este?
Num ranking de sanha persecutória, José Sócrates entra direto para o top 5 dos mais injustiçados da História. Neste momento, a tabela organiza-se assim: 5) Bruxas de Salém; 4) Capitão Dreyfus; 3) Galileu; 2) José Sócrates [nova entrada]; 1) Jesus Cristo. Apesar de uma detenção no Jardim de Getsémani ser menos maçadora do que na manga de desembarque de um voo TAP, e mesmo tendo em conta que, na verdade, Jesus estava mesmo a pedi-las, o Nazareno continua à frente porque a sua condenação injusta originou a maior religião do mundo. Mas José Sócrates ainda tem tempo.

José Diogo Quintela in "Público"
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domingo, 12 de outubro de 2014

GESTORES DA PT SÃO ESPECIALISTAS NA COMPRA DE PRÉMIOS INTERNACIONAIS

Um exemplo chocante de destruição de valor” e de uma gestão “capturada por interesses próprios e por interesses particulares de um acionista” e “submissa a interferência políticas”. “Um exemplo muito, muito mau” de uma cultura empresarial dominada por gestores com “estatuto de  inimputabilidade”, que são “especialistas na compra de prémios internacionais” e apresentados como “gurus da gestão” sem nunca terem dado provas. As palavras de António Pires de Lima sobre o que se passou na PT são duras e têm vários alvos. O ministro da Economia, que já no verão, quando se soube do investimento de €900 milhões da PT na Rioforte, tinha criticado os gestores da empresa, vai agora muito mais longe, apresentando a PT como o exemplo de más práticas que não podem ser repetidas e do que não pode ser a cultural empresarial portuguesa. Porque, explica, “separar o trigo do joio, dizer o que são as boas práticas e censurar as más, é um trabalho que também compete ao Governo”.
Nas declarações que fez ao Expresso, já depois da notícia da demissão de Zeinal da Oi, Pires de Lima nunca refere o nome do homem que dirigiu a PT desde 2008. Nem Bava nem Henrique Granadeiro são nomeados. Percebe-se que é uma opção: ao ministro da Economia interessam menos as pessoas e mais o tipo de gestão que representam e a herança que deixam.
Sobre essa herança, Pires de Lima não se alonga: “O mal está feito e agora,  destes destroços da PT, há de se fazer o que se puder, mas não há de ser igual àquilo que a PT já foi.” O governante  admite que “é improvável” que surja uma solução para a empresa ficar em mãos portuguesas, “mas também já era improvável nesta fusão com os brasileiros, como se percebeu rapidamente” (abre parêntesis: “É chocante que há uns anos se tenha questionado tanto a possibilidade de a PT ser comprada pelo grupo Sonae, que fez uma OPA valorizando a empresa €10 mil milhões, ou até ser integrada na Telefónica, para hoje vermos a PT terminar a ser alvo de empresas internacionais com projetos que não têm comparação com aqueles que se prefiguravam há uns anos”).
Resumo da história: “As perspetivas que a PT possa ter pela frente não terão comparação com as que existiam antes, mas compete aos acionistas escolherem o caminho. Eu não sou um governante socialista que vá dar palpites à PT sobre o que deve fazer,como no passado aconteceu com José Sócrates.” (Segundo parêntesis: “O momento fatal para a PT”, diz Pires de Lima, “foi o Governo de José Sócrates só ter acedido à venda da Vivo pela compra, a um preço exorbitante, da Oi, que era uma empresa de terceira classe. Esse movimento destruiu muito valor e, segundo se sabe, foi uma exigência direta de Sócrates.” E fica na mesa o primeiro de dois nomes que o governante traz à liça como corresponsáveis  pelo que aconteceu na PT. O segundo será Ricardo Salgado.)
Pires de Lima considera que o fundamental é separar o trigo do joio e enterrar os modelos de gestão tipo Bava/Granadeiro. “Para mim, o importante, porque isto não é um caso único na economia nacional, é o sentido maior de exigência que deve incidir na gestão das grandes empresas. O que eu quero é usar este mau exemplo da PT para que exemplos destes não se repitam na cultura empresarial portuguesa.”
Aprender com a lição que, segundo o governante, se conta assim: “A evolução da PT é o exemplo acabado e chocante de destruição de valor numa grande empresa nacional, que perdeu mais de 85% daquilo que era, como consequência da gestão ter sido capturada por interesses próprios e  interesses particulares de um acionista, e ter sido extraordinariamente submissa a interferências políticas completamente irracionais do ponto de vista económico.”
Para o ministro da Economia, “é importante que este modelo — que só é possível com cumplicidades políticas, com captura de interesse de acionistas por gestores — seja censurado e não seja repetido, caso contrário torna-se muito difícil atrair investimento internacional de qualidade para Portugal. Para que a economia portuguesa tenha capacidade de atrair investimento, é fundamental que os gestores sejam qualificados e funcionem em função de uma agenda alinhada com os acionistas, e não de agendas próprias. Que funcionem mais na base de produzir resultados que possam ser quantificados através das demonstrações anuais de resultados, do que tornando-
se especialistas na compra de prémios internacionais que não têm correspondência com os resultados reais da empresa.” Sim, a referência à “compra de prémios internacionais” tem um nome, e Pires de Lima nem precisa de o dizer, pois não há quem não saiba que Bava foi várias vezes escolhido como o melhor CEO europeu do sector de telecomunicações.
“Acho que vale a pena fazer a radiografia de tudo o que se passou na PT”, diz Pires de Lima. Que faz o seu raios-X: “As figuras mais altas da PT sobreviveram com uma aura de prestígio, apesar de a empresa se desvalorizar todos os anos 20% e 30%. Isto foi possível graças a muita falta de exigência, ou cumplicidade, entre núcleos de acionistas e os gestores. E também à custa de falta de exigência na comunicação social e nos agentes que acompanham estas empresas, porque não é natural que uma empresa se tenha degradado, com a mesma equipa de gestão, durante tantos anos, sem que tivessem soado sinais de alerta.” Um sintoma, diz, de “uma cultura empresarial que continuamos a ter em Portugal, na qual muitas vezes é conferido aos gestores um estatuto de quase intocabilidade. Sr. doutor para aqui, Sr. engenheiro para ali, ene mordomias, um tratamento acrítico da comunicação social. Eu vim desse mundo, eu conheço-o. E geram-se com grande facilidade em Portugal gurus da gestão que, realmente, de gerir e de criar valor em empresas nunca deram provas.”
Os analistas financeiros também não escapam. “Qualquer bom analista financeiro consegue perceber como se destruiu este valor na PT em oito anos e consegue identificar as decisões de gestão e de carácter político que tiveram interferência nesta destruição de valor, bem como estas últimas decisões inexplicáveis, em que de repente se percebeu que a comissão executiva da PT estava prisioneira, capturada, dos interesses de Ricardo Salgado”, diz o ministro da Economia.
O que pode ser feito agora? “Há modelos de governação que são privilegiados pelas empresas cotadas em bolsa, e que devem ser exaltados, há analistas financeiros que deveriam ter cumprido o seu papel, há auditores que devem fazer ouvir a sua voz de forma firme. E também não acho mal que o Governo, mais do que andar a forçar empresas a fazer o negócio A, B ou C, para depois ir inaugurar sedes e fazer disso momentos políticos, procure estabelecer padrões de governação que funcionem como censura a estes casos e aplauso aos que funcionam de outra maneira.”
No roadshow que tem feito desde há um ano para captação de investimento para Portugal, Pires de Lima diz que tem sido confrontado com muitas perguntas sobre o BES e a PT. E que essa tem sido a oportunidade para responder que “sim, esses casos não correram bem, mas temos 18 casos no nosso principal mercado de capitais que correm bem e que são geridos com boas regras de governação”.
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sábado, 11 de outubro de 2014

A GRANDE ILUSÃO

Correu o pano. António Costa ganhou o PS com uma maioria confortável e os socráticos às cavalitas. Prometeu na noite do apeamento de Seguro que há-de reconduzir o povo socialista ao poder, saudado à volta por gente de punho erguido à maneira antiga.
Com uma frase estudada, para consumo mediático, advertiu: “Este é o primeiro dia de uma nova maioria de governo. É o primeiro dia dos últimos dias deste Governo”. Depois, falou sem grandeza de alma, nem uma palavra ao adversário vencido. Ficou tudo dito sobre a unificação do PS.
Antes, num painel organizado pela RTP, perante um frouxo Nuno Morais Sarmento, viu-se José Sócrates compor a pose de comentador para dizer o contrário do que pensava: que a vitória cabia por inteiro ao mérito de Costa, sem que ele - e os históricos - tivessem contribuído para isso. Não se esqueceu, contudo, de enfatizar que votara nele.
Foi o prelúdio. Desfilariam, depois, nos vários espaços televisivos, eufóricos, alguns dos seus antigos e mais dilectos colaboradores no Governo. Desejosos de saírem da sombra.
Ao conquistar o poder partidário, António Costa trouxe Sócrates agarrado à lapela. Não adianta escamoteá-lo, como se verá em breve.
De facto, nas suas divagações pela Quadratura do Círculo, o ainda autarca de Lisboa esmerou-se na reverência contemplativa, sem nunca criticar o galopante desvario que empurrou o país para o desastre, impondo um resgate que é o cerne da austeridade.
Mas a memória é curta. Para o cidadão - activo ou pensionista - castigado pela dureza dos cortes, a culpa é do Governo que está.
Meticulosamente, José Sócrates encontrou na RTP o meio permissivo para branquear o passado. Costa precisará que ele prossiga assim, desmemoriado, para cavalgar o descontentamento até às legislativas, sem sequer exorcizar os desmandos da governação socialista.
Na encenação dos três episódios da novela, a que se prestaram as televisões nestas primárias, mais do que um conflito de personalidades, assistiu-se, em directo, à incapacidade de ambos os contendores para debaterem o presente ou pensarem o futuro do país. Nem uma palavra útil.
Entre as acusações pessoais e a esgrima de florete, somaram-se as narrativas redondas e a mais completa vacuidade. Nem uma ideia redentora.
Percebeu-se - excepto para quem engana a realidade - que nenhum deles estava preparado para ser primeiro-ministro.
Se Costa algum dia lá chegar, não tardará a desiludir, caindo do mítico altar onde o colocaram. A ficção tem o seu prazo de validade. E o peso da dívida do Estado, mesmo com a benevolência externa, imporá as suas leis a qualquer Governo.
Até lá, Passos Coelho precisa de libertar-se da Tecnoforma e de outras armadilhas que lhe lançaram aos pés e envenenaram o ambiente.
É curioso que, no espaço de uma semana - e na ressaca de uma carta anónima -, haja dito, por duas vezes, primeiro no Parlamento, depois diante do Conselho Nacional do PSD, que estará a ser vítima de pessoas “influentes”, por não ter cedido a interesses poderosos. Admitiu mesmo ter recebido um “mensageiro” que lhe prenunciou a queda próxima do seu Governo, por se ter metido com determinada pessoa…
Não fala em “campanha negra”, nem nos “pistoleiros do costume”, ao jeito de Sócrates, mas é irresistível a comparação do 'caso Tecnoforma' com o 'caso Freeport', envolvendo ambos denúncias em carta anónima.
O recurso a cartas anónimas, por natureza um acto cobarde - como é, também, o anonimato nos sites e na blogosfera - constituem uma das idiossincrasias do ser português. Os media, contudo, ora as desprezam, ora as valorizam. Depende.
A carta anónima tanto pode ser tratada como um papel apócrifo e conspirativo, como se viu no Freeport - a merecer a reprovação indignada do então bastonário Marinho Pinto -, como causar estranheza o facto de a PGR ter sido expedita a arquivar a Tecnoforma.
A traição, a denúncia e a espectacularização mediática da suspeita ganharam ultimamente um novo alento.
O certo, porém, é que , como por milagre, apagou-se nos media o 'caso BES' e o colapso do grupo Espírito Santo - com ondas de choque dramáticas que hão-de chegar mais cedo do que se pensa.
Enquanto se aguardam as conclusões das auditorias forenses pedidas pelo BdP, caiu um enorme silêncio sobre as investigações do Ministério Público.
Alguém se lembra ainda da acusação feita pelo governador, em Agosto, de que “o Grupo Espírito Santo, através das entidades não financeiras não sujeitas a supervisão do Banco de Portugal, desenvolveu um esquema de financiamento fraudulento entre as empresas do grupo”?
A tempestade financeira adivinha-se, mas, no seu retiro no Estoril, Ricardo Salgado saiu do olho do furacão. Com o PS dividido e o PSD inquieto, a grande ilusão promete continuar. O filme só está no princípio.
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Diniz de Abreu in "SOL"
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