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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O CABO DE GUERRA


O Jeep avançava aos zig-zagues e solavancos, escolhendo o condutor os buracos menos fundos da picada, numa louvável tentativa de evitar acabar ali com a já longa carreira da viatura que nem na Coreia tinha visto caminhos assim. Luís Castro, alferes miliciano médico, militar da tropa por imposição e civil por convicção, sentado no banco traseiro, já tinha o rabo calejado pelas selas em que cavalgava quase todas as semanas na demagógica missão de dar assistência clínica aos timorenses residentes atrás do sol posto e que era parte importante do que oficialmente se chamava acção psico-social. Era jovem e a coluna vertebral ainda suportava bem aquelas convulsões. Mantinha-se apenas atento ao caminho, para prever o próximo encontrão e não ser projectado pela borda fora.
À sua frente, limitando o ângulo de visão da picada, a cabeça do soldado condutor Fornelos, estranhamente quase calvo, com alopécia de padrão feminino do grau III da escala de Ludwig, e a cabeça de pilão do comandante do Sector, assente sobre um pescoço bufalino espetado no vértice do cone de base larga situada na cintura e altura diminuta que era o tronco. Um horror!
Aproximava-se o único momento divertido daquela “seca” periódica que era a viagem de Baucau até Ossu, na visita à Companhia do “Mundo Perdido” e aos pequenos destacamentos situados no caminho. O “cabo de guerra” comandante do Sector fazia questão de ser acompanhado pelo médico pois, além de fazer toilette, era uma maneira de o chatear, coisa que nunca perdia oportunidade de fazer. Estavam a menos de dois quilómetros da ribeira, situada em vale profundo e estreito, que se atravessava sobre uma ponte de teca construída pelos japoneses há mais de vinte anos. Embora fosse a mais genial obra de engenharia militar das redondezas, e fosse feita de teca, madeira quase eterna especialmente quando mergulhada na água, tinha já alguns sintomas de parkinsonismo ao ser cruzada pelas viaturas. A experiência de viagens anteriores fazia Luís sentir ansiedade pela cena que iria, seguramente, repetir-se. Estava ainda ocupado com este pensamento, quando o “cabo de guerra” iniciou a conversa preparatória.
- Ó Fornelos, já alguma vez passaste na ponte que está aí à frente?
- Sim, meu comandante. Várias vezes.
- É preciso muito cuidado e tens que saber por onde se passa. Depois eu digo-te.
Estava dado o mote para a cena patética a desenvolver na ribeira, dali a mais duzentos e cinquenta buracos e muitos “golpes de rins”.
Quando avistámos o pontão, levantou o braço com a manga da camisa descida e abotoada, apesar de transpirar como um touro no final da corrida, e apontou para ele.
- É ali. Paras antes de atravessarmos.
Tinha a camisa com uma imensa mancha de transpiração nas costas, mas era do calor. Faço-lhe essa justiça.
O condutor estacionou a cerca de três metros da ponte. O homem apeou-se e dirigiu-se à margem da ribeira. Aí, olhou para os lados daquela engenharia que devia fazer parte dos seus pesadelos, atravessou-a a pé e, do outro lado, voltou a inspeccioná-la lateralmente. Em seguida levantou o braço, qual polícia sinaleiro mandando avançar, e ficou a comandar, com gestos convictos, a difícil manobra, qual era a de andar pouco mais de meia dúzia de metros em linha recta. Aliás, não podia ser de outra maneira, dada a largura da ponte, pouco maior que a do Jeep. Lá dentro, o soldado Fornelos ria descaradamente e Luís fazia coro, esperando que aquela cangalhada não fosse toda pelo buraco abaixo. O cágado tinha inventado a pantomina para não atravessar a ponte dentro da viatura.
É claro que estes feitos bélicos passaram depressa de boca em boca e chegaram ao conhecimento da hierarquia. Melhor dizendo, da cadeia de comando. Assim é que é. Quando interrogado sobre tal comportamento, explicou que não podia arriscar cair no buraco pois deixaria o sector decapitado!
A formidável máquina de guerra do sector era constituída por duas companhias, uma das quais com praças indígenas, e três companhias de tropas de segunda linha, formadas por timorenses descalços, incluindo os sargentos, três alferes, um tenente e um capitão, assessorado por um furriel português que era quem mandava. Imaginem uma organização destas, quase equivalente a um corpo de exército do Romel, sem a cabeça pensante do comandante!
Luís recordava-se de uma madrugada em que regressou ao quartel, depois de ter ido assistir as vítimas da queda num vale da viatura que conduzia vários militares, e lhe comunicou que havia morrido um soldado. Virou-se para ele alarmado e perguntou de imediato: era preto ou branco? Quando soube que era timorense, estampou-se-lhe um sorriso nas trombas com o alívio. O canalha só receava a complicação de ter de explicar porque caiam os Unimogs do Sector nos vales e morriam soldados europeus. Como a vítima era timorense, daria a explicação óbvia de que morreu porque era indígena.
Esta alarvice do cérebro que liderava militarmente a tropa de pé descalço ou de chinelo acalcanhado naquela zona, indispunha-o supinamente. Tinha criado laços de amizade com os soldados indígenas que conduziam como ninguém as viaturas naquela terra acidentada e difícil, com os guias que o levavam aos lugares mais escondidos como se tivessem um GPS no cerebelo, com os sipaios que encontrava no caminho e se mostravam preocupados com a sua evidente falta de preparação para viajar naquelas condições, a cavalo ou a pé, e com os chefes tradicionais que o recebiam como um príncipe, oferecendo-lhe belas refeições de sarapatel, cerveja “Laurentina” quente e a melhor palhota para dormir, em esteiras muitas vezes com lençóis. Eram simples, humildes, amigos e conformados com a desgraça que era a vida deles.

Desde que havia tido uma disputa desagradável com o jagodes, em que ele não se saiu muito bem, passou a ter frequentes guias de marcha para fazer acção psico-social nos locais mais inacessíveis, com particular preferência pela costa Sul. Andava dias inteiros nos cavalos anões de Timor, com os pés quase a arrastar pelo chão e calo no rabo. Foi a sítios onde era cercado pelas crianças que se deslocavam às arrecuas na sua frente, olhando para ele como se estivessem no jardim zoológico, porque nunca tinham visto um branco. À noite, quando se deitava, pensava no engano em que estava a colaborar, pretendendo fazer crer àquela gente que estava a ajudá-los, quando era tudo uma demagogia total. Se estavam mal antes de ele chegar, continuavam mal depois de partir. Algumas injecções de cloroquina ou penicilina, uma dúzia de pensos em feridas que nunca mais se curariam, tratamentos paliativos para dois ou três dias em doentes terminais e muita ignorância da sua parte sobre a patologia tropical de que a maioria sofria. Viu morrer vários em caquexia, sem fazer ideia do que tinham. Tumores? Malária? Outras parasitoses? Tuberculose? Sabia lá! Quando desembarcou em Timor, um colega já veterano tinha-lhe dito: até prova em contrário, todo o timorense é tuberculoso. Não seria bem assim, mas andava lá perto. A malária, as parasitoses intestinais, a subalimentação, a falta de imunidade e as condições de habitação tornavam famílias inteiras presas fáceis do bacilo, presente que os portugueses lhes levaram no Século XVI. Uma lástima!

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